Para quem gosta de história

>> quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

A profissão obriga-me a escrever frequentemente sobre livros, mesmo que nem sempre os leia.
Não foi o caso destas duas sugestões que aqui deixo para os apreciadores de história romanceada. Pessoalmente, gostei mais do "Eu, Leonor Teles".

Os textos foram publicados n'O Primeiro de Janeiro.



Mais uma vez María Pilar Queralt del Hierro retrata uma mulher com papel de relevo na história portuguesa. Depois de Inês de Castro, uma obra traduzida para português em 2003, que rapidamente entrou para a lista dos dez livros de não-ficção mais vendidos, tornando-se num autêntico best-seller, a autora debruça-se agora sobre Leonor Teles de Meneses, mulher de D. Fernando I de Portugal, numa obra com a chancela da A Esfera dos Livros e intitulada Eu, Leonor Teles. A dama maldita.
Para a autora “as mulheres são as grandes desconhecidas da história”. Ao longo dos séculos, as grandes figuras heróicas sempre foram masculinas, mas pouco se tem dito das mulheres. “E quando se disse, foi sempre de uma forma romântica e superficial”, afirma.
Por isso mesmo, a historiadora espanhola resolveu trazer a público algumas das mulheres que, na sua opinião, contribuíram, ao longo da história, para muitas das conquistas femininas. Leonor é, confessa, “um personagem histórico muito interessante e sobretudo simboliza a mulher maltratada pela historiografia oficial”.

Ambiciosa e intriguista
A mulher de D. Fernando I de Portugal era uma mulher ambiciosa, frívola, que se casou por interesse, adúltera. Tudo características, ou “qualidades”, segundo María Pilar Queralt del Hierro, que sempre foram reconhecidas e aplaudidas nos homens. A autora confessa que tentou meter-se na pele de Leonor Teles e explicar tudo o que se passou, bem como o porquê do seu comportamento e atitudes.
E daí a opção pela escrita na primeira pessoa: “Para as sombras justiceiras que me visitaram nos meus anos de prisão fui a Dama Maldita. Ainda mais cruéis e certeiras, asseguraram-me que ninguém me recordaria no futuro e que se o fizesse me contemplaria debaixo do estigma da desonra. Cumpriram-se os seus presságios. Certo é que fui adúltera, traí, intriguei e até manejei as adagas de outros… era esse o negócio das cortes. O meu rei e marido, D. Fernando I de Portugal, carecia de coragem e ambição. Justo o que sobrava ao meu amado João Fernandes, conde de Andeiro. Tive então que actuar por minha conta e risco e agora é altura de me justificar. Volto pois agora, para vos explicar o porquê do meu destino. Tudo me foi dado. Tudo me foi tirado. É hora da História me fazer justiça”.
Ao longo de 200 páginas Leonor explica-se, assim, num atraente livro cuja ficção se mistura com a história.



Raul Santo-Varão nasceu na zona de Coimbra no início da década de 1120 e poderá ter sido o inventor da reportagem, ao deixar escrito o relato da conquista de Lisboa aos mouros, em 1147. “O estilo das suas reportagens nem sempre é perfeito e o seus papel nos acontecimentos é quase sempre ambíguo. Mas é precisamente por isso que o que escreve é tão revelador”, afirma o autor, Paulo Moura.
Os dez livros deixados pelo “repórter” tiveram um percurso algo espectacular, e foi também de modo espectacular que foram parar às mãos do jornalista do Público. Tudo começa em Julho de 2006 com a célebre tentativa de abertura do túmulo de D. Afonso Henriques por uma equipa de antropólogos da Universidade de Coimbra, cancelada pelo Governo no último instante. Porém, revela Paulo Moura, “apesar das notícias oficiais, uma investigadora chegou a abrir o túmulo” e pôde com isso descobrir-se que dentro existem duas urnas de madeira. “Uma contém a ossada do rei. Quanto à outra, guardou em tempos os restos mortais de Mafalda, esposa de Afonso Henriques. Mas já não. Em algum momento, entre o século XV e o século XXI, o conteúdo da pequena caixa foi substituído”.

Papéis valiosos
Surpreendentemente o jornalista revela então que “dentro da carcomida urna não havia ossos mas papéis”. E antes que esses papéis “fossem confiscados pela polícia ou pelo instituto governamental do património arquitectónico, a cientista tomou uma estranha decisão: entregou à minha guarda todos os manuscritos que encontrou no túmulo”.
Segundo Paulo Moura, “há indícios que os manuscritos, ou parte deles, terão sido entregues, ainda no século XII, a D. Teotónio, fundador e prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que os terá passado a um sucessor de confiança, e este a um outro e assim sucessivamente”. A sua transferência para o túmulo de D. Afonso Henriques poderá ter ocorrido, ainda de acordo com Paulo Moura, quando as ossadas do rei foram trasladadas para a capela-mor da igreja, onde hoje ainda se encontram.
Em 1147, o tesouro de Lisboa
, Paulo Moura actualiza assim alguns termos e conceitos de Raul Santo-Varão na descrição da conquista de Lisboa. Conquista essa ajudada por um grupo de cruzados que estavam a caminho da Terra Santa, e que aceitaram combate ao lado de Afonso Henriques por causa dos rumores de um tesouro de riqueza incalculável, enterrado nas muralhas da cidade.


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Leituras de 2006

>> quinta-feira, 14 de Dezembro de 2006


Já não faço um post aqui há não sei quanto tempo, mas não é sinal de menos leitura, é mesmo falta de tempo. Resolvi fazer agora um para salientar algumas leituras ou autores de 2006, que foi (tem sido) um ano de poucas leituras muito boas, muitas medianas e, infelizmente, bastantes coisas más ou que foram desilusões. Mas vou falar das coisas boas e das surpresas.

* Descobri 2 autoras que vou de certeza continuar a seguir, em 2 estilos distintos.
Uma, a Karin Slaughter, policial puro e duro, excelente, já sentia falta de livros assim, cheios de emoção e suspense. Li os dois que já existem traduzidos em português:
Um Muro de Silêncio (obrigada A. :op) e Morte Cega, e comprei recentemente na Amazon o último dela e que não faz parte da série dos outros dois: Triptych -> cheira-me que não estará mto tempo parado na estante ;)
A outra autora foi a Lilian Jackson Braun, conhecida pela série de livros "The Cat Who...". São os chamados cozy mysteries, nada de detalhes grotescos e pormenores sangrentos, histórias muito levezinhas semelhantes ao estilo da Agatha Christie mas em que o protagonista é ajudado por 2 parceiros muito especiais, os seus gatos KoKo e Yum-Yum. Li os 3 primeiros volumes da série (ah pois é, já são quase 30, help!!):
The Cat Who Could Read Backwards, The Cat Who Ate Danish Modern e The Cat Who Turned On and Off.

* Graças à
Patxi, que falou tão bem aqui do livro Improvável do Adam Fawer, lá me inscrevi no bookring e não me arrependi nada, foi uma leitura fantástica e de deixar a cabeça em água :op com tanta física quântica e teoria das probabilidades. Muito bom. Ainda não leram? Vá lá!!!

* Finalmente, e em leitura conjunta com outras meninas que escrevem neste blog, saiu da prateleira o calhamaço
Middlesex de Jeffrey Eugenides, livro que merece todas as críticas excelentes que lhe foram feitas (ao contrário de muitos outros....). Este é um autor, no entanto, que não me puxa para ir ler mais coisas dele, As Virgens Suícidas até já há em filme ;o)

* Para terminar, falar do meu "amado" Dean Koontz, continuo fã e este ano lá li mais 4 (se não estou em erro) livros dele. Aqui vou referenciar o
Odd Thomas, em que ele está no seu melhor. Este livro faz parte duma trilogia (para já) em que também já li o segundo, Forever Odd, que não é nem de longe tão bom como o outro. Espero que o Brother Odd que aí vem proximamente se redima.

E por hoje é tudo. Chega?? ;o)

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