>> sexta-feira, 22 de Junho de 2007

— Não, nunca - disse ele -, nunca conheci ninguém com uma vida perfeita. Um passado perfeito e um futuro promissor, sim. Mas o passado perfeito é sempre brilhantemente rescrito e o futuro promissor um sonho sem esperança. A única vida perfeita é a que se passa no papel e, mesmo nessa, há aqueles espaços entre as palavras e as linhas, e é raro serem hiatos inócuos.
— Sim, somos cautelosos - disse ela -, cautelosos com o que mostramos aos outros e com o que revelamos a nós próprios.

Robert Wilson
O cego de Sevilha

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Vamos lá a saber...

>> quarta-feira, 20 de Junho de 2007

QUEM É QUE MUDOU O TEMPLATE A ESTE BLOG?!
HUM? HUM?
Quem é, quem é que só gosta de AZUL?!?!
Onde é que está o 'nosso' maravilhos Fucsia? E a 'nossa' imagem duma Livraria?!
Ai que temos a Burra nas couves!!!!
:P

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Fantasias eróticas

>> terça-feira, 19 de Junho de 2007

Caríssim@s,
Aqui está um livro que é, em si mesmo, um desafio… para mulheres e homens.
Às mulheres, deixo aqui o desafio de responderem ao questionário que deu origem ao livro e que vem incluído no final… mesmo já não dando para integrar na pesquisa, acreditem que vale a pena. Atenção: não é fácil. Tal como a Isabel referiu na apresentação é bem arrancado às entranhas mas um óptimo meio de nos ficarmos a conhecer.
Aos homens, que tanto se queixam de não compreenderem as mulheres, quem sabe não está aqui uma ajudinha. Apesar de as respostas serem pessoais, são (ou já foram em determinada altura) comuns a todas nós.
Deixo, como é hábito, o que escrevi n'O Primeiro de Janeiro.


Arrancado às entranhas

“Fantasias eróticas. Segredos das mulheres portuguesas” é o título do livro que a jornalista Isabel Freire acaba de lançar com chancela de A Esfera dos Livros. Uma série de relatos íntimos “arrancados às entranhas” de cerca de 100 mulheres portuguesas.

“É essencial que a discussão sobre a sexualidade feminina seja assumida pelas mulheres! Que tomem o pulso às suas vontades, desejos, dúvidas e que as exprimam, troquem ideias, informações. Que assumam aquilo que são (sejam lá o que forem)! Pois a nossa sexualidade enquanto espécie é demasiado complexa para se reduzir à meia dúzia de estereótipos que parecem imperar nas nossas ideias sobre sexo”.
Este é o testemunho de uma anónima, de 30 anos, que, à semelhança de muitos outros, é reproduzido no livro de Isabel Freire. “Fantasias eróticas” é, segundo a autora, “o diário íntimo das mulheres portuguesas”, que ali descrevem “efabulações, factos, percepções e emoções da sua biografia sexual”.
Os testemunhos foram recolhidos por email ou correio durante um ano e algumas das mulheres foram entrevistadas pessoalmente, muitas em mais de 12 horas de conversa, revelou Isabel Freire na apresentação do livro em Aveiro. “Este é um trabalho que tem que ser feito sem pressa. Não há capacidade de reflexão sobre um assunto como este a olhar para o relógio”.

Trabalho sério
A sessão contou com a presença da psicóloga Ana Garrett, para quem este “é um trabalho sério onde as mulheres explicam o que sentem, se expõem, abrem as suas partes mais íntimas para tentar modificar algumas ideias relacionadas com a sexualidade neste país”.
E não há, de acordo com Ana Garrett, um testemunho único. Pelo contrário. “Cada mulher se reconhece em cada um destes testemunhos. Não há um testemunho estanque a determinada mulher”. Segundo a psicóloga, “a sexualidade, tal como o corpo, está sempre a mudar, a evoluir, e nós com ela”.
Isabel Freire assegurou que “o que está contido no livro foi arrancado às entranhas, num exercício de auto-análise que não é fácil”. Daí que considere que a obra tem 95 autoras mais uma. “Depois disto, estas mulheres ganharam um conhecimento sobre si mesmas muito importante”.
Para a autora, “a leitura do livro pode ser feita na diagonal mas também pode ser uma leitura de choque”. Este livro “é um murro no estômago”, assegurou.
A investigação da jornalista teve como base um questionário de 60 perguntas, incluído no final do livro, que foi divulgado via internet. Além dos testemunhos, Isabel Freire completou o seu trabalho com entrevistas a psicólogos, terapeutas sexuais, psiquiatras, produtores de pornografia e ainda elementos de associações de gays e lésbicas.



«As situações eróticas mais excitantes surgem associadas (...) ao descontrolo total» - Anónima, 27 anos

«As minhas fantasias têm mudado consoante as fases da vida, mas o elo comum, recorrente, é sempre o facto de me encontrar numa posição fragilizada perante os “violadores”, opositores, dominadores, de ser a “vítima”, num sentido elogioso da questão» - Anónima, 42 anos

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Booket.pt

>> domingo, 17 de Junho de 2007

A Dom Quixote lançou uma nova editora — Booket.pt — só com edições em formato paperback, o que já não era sem tempo. Esperemos que seja para continuar e com obras actuais. Os preços são convidativos.

Não resisti e comprei dois…

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… ismos

>> quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Eu, que nunca consegui distinguir o Maneirismo do Romantismo, do Classicismo ou do Rococó, encontrei na FNAC esta maravilha (e baratinho, ainda por cima!).

Chama-se "…ismos. Entender a arte" e é um excelente guia para todos os movimentos artísticos, desde a Renascença até aos modermos Minimalismo ou Futurismo. Recomendo vivamente.

É da editora Lisma
(do Seixal… em pleno deserto, pois…) e a edição assemelha-se muito às da Taschen. É toda em quadricromia e inclui glossário, cronologia e lista de museus a visitar.

A leitura é super acessível, como podem ver pelo exemplo:



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Recomendo

Cá estou eu mais uma vez para não falar de ficção (qualquer dia mandam-me embora daqui...). Sorry!!, mas as minhas leituras são mais estas e há livros que acho que vale a pena divulgar. Deixo aqui três deles, junto com os textos que escrevi para O Primeiro de Janeiro.

Vítimas de Salazar

Três historiadores analisam histórias de violência no Estado Novo com base nos testemunhos humanos das próprias vítimas. Um estudo detalhado sobre os aparelhos repressivos do Estado Novo, fundamental para compreender a história do século XX português.

“Vítimas de Salazar – Estado Novo e violência política” é o título do livro recentemente editado pel’A Esfera dos Livros, da autoria dos historiadores João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha.
O livro divide-se por 17 capítulos que analisam a Censura, as escutas telefónicas e violações de correio, os informadores da PIDE-DGS, a tortura, julgamentos políticos, as medidas de segurança, os saneamentos da função pública, deportação e exílio, campos de concentração, o exército, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a formação de uma nova mentalidade, os estudantes na mira do Estado Novo, fome e repressão, a repressão na rua, mortes violentas e a fraude eleitoral de 1958.
São, como refere João Madeira, coordenador da obra, “narrativas históricas de violência e de resistência” em que os historiadores olham os aparelhos repressivos do Estado Novo, o seu funcionamento, a sua acção, “mas sem nunca perder de vista os destinatários directos, imediatos — gerações de homens e mulheres que sentiram a violência do regime, sofrendo-a, mas também enfrentando-a, a seu modo e como puderam, tantas vezes de forma corajosa e até heróica, com custos de toda a sorte na própria vida e com a própria vida”.

Vítimas têm nome
No livro, os autores abordam “um conjunto de episódios e de situações que reflectiram, de modo expressivo, frequentemente intenso, essa violência”. Casos que ressaltam da investigação que cada um dos historiadores tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos anos no seio do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
E como as vítimas da violência do Estado Novo têm nome, este não foi omitido na obra. “Tiveram, e alguns têm ainda, existência real, família, amigos”, realça João Madeira. No entanto, esclarece, o objectivo que norteou a escrita foram, fundamentalmente, “os múltiplos modos e formas de actuação que se tornaram caudais da resistência a um regime autoritário e repressivo”.
Reconhecendo ainda que haverá, nesta obra, aspectos em falta e domínios por abordar, João Madeira avisa que os três autores assumem não ser imunes ao tema e à forma como o tratam. “Tomamos partido, o que está longe de significar termos sobreposto esse modo de olhar e de avaliar ao resultado da investigação que fazemos”, assegura. “Mantivemos acontecimentos e personagens quase míticos da resistência à ditadura, mas procurámos evitar a representação que, sobre eles, se foi construindo e reproduzindo”.

A violência da memória
A este propósito, Fernando Rosas, autor do prefácio da obra, ressalva que “a objectividade e a neutralidade não existem nos processo políticos ou historiográficos de reconstrução da memória”. Mesmo porque “a memória da violência traz sempre consigo, de alguma forma, a violência da memória”.
E em tom de crítica, João Madeira conclui, lamentando que “alguns parecem hoje querer omitir ou atenuar muitos destes aspectos, reafeiçoando interpretações à sua volta, num processo feito aparentemente de esquecimento, de ajuste de contas ou de reelaboração do passado, como se quisessem que tivesse sido outra coisa do que efectivamente foi”.


Na capa: Cesaltina Maria Feliciano, ANTT/Arquivo da PIDE-DGS - Reg. Presos C0005


Filipa de Lencastre, a rainha que mudou Portugal

A editora A Esfera dos Livros acaba de lançar um romance histórico da autoria da jornalista Isabel Stilwell, que, numa vertigem de sentimentos e afectos, aventuras e intrigas, relata a vida de uma das mais importantes rainhas de Portugal.

Filipa de Portugal morreu de peste negra, com 55 anos, tal como a sua mãe, a 15 de Julho de 1415. Frei John, o tutor já tinha previsto o seu destino nas estrelas. Phillipa of Lancaster, filha primogénita de John of Gaunt, nasceu em 1360 e aos 29 anos deixou para trás a sua querida Inglaterra para se casar com D. João I de Portugal.

Mulher de uma fé inabalável, conhecida pela sua generosidade, empreendedora e determinada a mudar os usos e costumes de uma corte tão diferente da sua, Filipa de Lencastre deu à luz, ainda aos 29 anos, o primeiro dos seus oito filhos. A chamada Ínclita Geração, que um dia, como ela, partiria em busca de novos mundos e mudaria para sempre os destinos da nação.
A 11 de Fevereiro de 1387 o povo invadiu as ruas da cidade do Porto para aclamar carinhosamente D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal. Num romance baseado numa investigação histórica cuidada, Isabel Stilwell conta-nos agora a vida de uma das mais importantes rainhas de Portugal, desde a sua infância em Inglaterra, onde conhecemos a corte do século XIV, à sua chegada de barco a Portugal onde somos levados numa vertigem de sentimentos e afectos, aventuras e intrigas.
Isabel Stilwell é jornalista. Ex-directora da revista Notícias Magazine, com um longo percurso na imprensa escrita, sempre se confessou apaixonada por romances históricos.


Miguel Torga e a Pide

Para o jovem historiador Renato Nunes, e “apesar de todas as dúvidas”, é “impossível compreender e interpretar uma grande parte da História de Portugal do século passado antes de serem realizados estudos sistemáticos sobre a Censura e, muito concretamente, sobre a Censura literária”. Mais, continua, “se a literatura, devido às suas constantes relações com a ficção, nem sempre constitui a ‘melhor forma de nos dar a dimensão da História’, ela é o ‘meio mais poderoso para conhecer a alma dos seus protagonistas’.
E se a literatura é, de facto, uma das fontes privilegiadas para estudar e compreender a alma de um povo, a verdade é que o silêncio que perpassa daquilo que não se pode escrever, também reflecte, de um modo tão ou mais profundo, o estado da alma desse mesmo povo”.
Renato Nunes, professor de História do ensino básico, em Tondela, é o autor do volume 26 da Colecção Minerva História, das Edições MinervaCoimbra, com o título “Miguel Torga e a PIDE”. Dirigida por Luís Reis Torgal, a colecção vai integrar uma série dedicada à repressão aos escritores no Estado Novo, do qual este é o primeiro volume.
Para o jovem autor, a alegria da edição do seu primeiro livro mistura-se com a desilusão de entender que este estudo poderia ainda abranger determinadas fontes, nomeadamente, as da Direcção Geral de Censura (DGC). Para este trabalho, Renato Nunes recorreu apenas às fontes da polícia política, PVDE/PIDE/DGS e alguns relatórios da DGC. Mas esses relatórios, que estão nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, ainda não estão completamente disponíveis ao público. “O que é pena, na medida em que nos poderiam permitir um estudo mais rigoroso da evolução da perseguição do Estado Novo sobre o escritor e as obras que foi publicando ao longo da sua vida”, refere.
Nesse sentido, Renato Nunes deixa um apelo aos historiadores e investigadores para que se debrucem mais sobre a documentação da DGC. “Em Portugal ainda está completamente por estudar a relação que existiu entre o Estado Novo e os escritores, qualquer um. Existem vários estudos e várias teses de mestrado e doutoramento, mas, curiosamente, no que diz respeito à relação entre a PIDE, a Censura e os escritores, não existe absolutamente nada”, afirma.
“E eu penso que é imprescindível, é fundamental, para compreender a história do Salazarismo, ou do Estado Novo, os historiadores embrenharem-se nos arquivos da PIDE e da DGC, porque são eles, mais do que qualquer outra das fontes, que nos dão uma dimensão do que foi na verdade o regime”. Porque, acrescenta, “se nos limitarmos a estudar o Estado Novo na versão que o regime atribuía de si próprio, na imagem que o regime queria atribuir de si próprio, nunca conseguiremos compreender na verdade o que é que foi o Estado Novo. Deixar-nos-emos sempre ofuscar por essa imagem que o regime tendia a atribuir a si próprio”.
Neste ponto, o historiador Luís Reis Torgal, orientador do trabalho de investigação do jovem professor, concorda com Renato Nunes. “O Estado Novo não terá procurado criar propriamente uma «arte oficial», mas parece indubitável que tentou estabelecer mecanismos suficientemente perfeitos para que surgisse uma «arte nacional»”. De resto, recorda, “foi essa uma das intenções do Secretariado de Propaganda Nacional, logo fundado em 25 de Setembro de 1933. No decreto que o criou pode ler-se no artigo 4.º, entre as funções a desenvolver na ordem interna: «Estimular, na zona da sua influência, a solução de todos os problemas referentes à vida do espírito, colaborando com os artistas e escritores portugueses e podendo estabelecer prémios que se destinem ao desenvolvimento de uma arte e de uma literatura acentuadamente nacionais»”.
De acordo com Luís Reis Torgal, a obra “Miguel Torga e a PIDE” é um estudo sobre um processo organizado pela PIDE — “sigla pela qual a polícia política se tornou tristemente célebre” —, que “mostra como a nossa «ditadura» não teve, efectivamente, o carácter «original» e «benevolente» – imagem que o regime deu de si próprio – que se lhe quer por vezes atribuir, numa lógica «revisionista»”. Efectivamente, acrescenta ainda, “a literatura, como qualquer outra arte, ou qualquer forma de vida (incluindo o quotidiano de cada um, a vida de família, o domicílio, a correspondência…), era constantemente vigiada e violada”.

Torga foi sempre vigiado
A obra divide-se em cinco grandes capítulos: I. A literatura e o Estado Novo: Como contribuía a literatura para os desígnios do Estado Novo e da oposição?, II. «O quarto dia» do romance autobiográfico «A Criação do Mundo» (1939), III. O escritor e as acções oposicionistas (1945-1958), IV. O Volume VIII do «Diário» e a candidatura ao Prémio Nobel da Literatura (1959-1960), com uma parte dedicada ao período dos anos 60 e à resposta à pergunta: diminuiu ou aumentou a vigilância e repressão sobre Miguel Torga, após 1950, como consta em alguns estudos?, e, finalmente, V. As últimas informações recolhidas pela DGS, já no período do marcelismo (1969-1974).
Em anexo, Renato Nunes apresenta uma breve cronologia dos processos de Miguel Torga na polícia política, “que me pareceram particularmente útil”, refere, “pois tal informação permitirá que o leitor tenha uma perspectiva diacrónica dos referidos processos”. Seguem-se “alguns originais e, por vezes, surpreendentes documentos extraídos dos processos escritor na PVDE/PIDE/DGS e uma pequena fotografia da casa em que habitou Miguel Torga quando residiu em Leira, nos anos de 1939 e 1940”. Renato Nunes inclui ainda alguns dados estatísticos sobre as várias informações recolhidas pela polícia política acerca do escritor, entre 1939 e 1973, e uma relação cronológica das obras publicadas por Miguel Torga ao longo desses anos. No final, surgem lado a lado os textos extraídos da obra «O Quarto Dia», de «A Criação do Mundo», aquando da sua estreia em 1939 e, por fim, na sua versão definitiva.
Luís Reis Torgal recorda que “a perseguição que foi movida a Torga teve o seu ponto alto e inicial em 1939, quando o escritor ainda era pouco conhecido nos meios do regime, mas em que este, através dos seus mecanismos repressivos, procurava encontrar textos considerados «perigosos» no plano político”.
Ou seja, continua o historiador, “quando Torga era, na mentalidade e na cultura pouco esclarecida dos responsáveis e agentes da PVDE um simples «médico de Leiria», a quem foi apreendido o volume “O Quarto Dia”, de “A Criação do Mundo””. Na obra, de carácter autobiográfico, como o próprio escritor a caracterizou, constavam opiniões e impressões de Miguel Torga, nomeadamente alusões críticas à Espanha franquista, à Itália e, inclusive, à repressão que então existia em Portugal. O livro foi apreendido e Torga preso no Aljube. “O autor foi sempre vigiado, até à morte do regime, como ele próprio se sentia e conforme dizia no seu “Diário”, em peça de grande significado e dramatismo”, que Renato Nunes, aliás, reproduz em epígrafe:
“Coimbra, 27 de Abril de 1961 — Há trinta e cinco anos (desde que, praticamente, comecei a ser gente) que vivo vigiado, como, de resto, todos aqui. E há trinta e cinco anos que olho com o mesmo consternado espanto os sujeitos que me vigiam. Nos tempos da Inquisição, ainda se poderia aceitar — com dificuldade, mas enfim… — que o fanatismo da fé levasse certos homens a comportamentos desumanos, embora Deus lhes não encomendasse o sermão. Mas agora nenhuma cega força interior motiva semelhante deformação. Um polícia secreto de hoje procede à margem de qualquer impulso sectário. Actua simplesmente por ofício. E é isso que me penaliza e assombra: que a intolerância possa constituir um modo de vida”, Miguel Torga, Diário IX, 1.ª edição, Coimbra, Edição de autor, 1964, p. 72.
Na obra, Renato Nunes salienta o decreto datado de 11 de Abril de 1933, que dizia que todas as publicações que abordassem motivos políticos e sociais deveriam ser submetidos a essa Censura prévia. “O problema é que o Estado Novo nunca definiu o que entendia por assuntos políticos e sociais, pelo que qualquer assunto poderia vir a ser considerado, depois, pelos censores passível de ser integrado nessa censura prévia”. Ora, como é sabido, Miguel Torga sempre se recusou a enviar as suas obras à censura prévia, pelo que, no seu caso, a Censura só podia ser repressiva — obras eram apreendidas depois de publicadas, como aconteceu com “O Quarto Dia” de “A Criação do Mundo”, “Sinfonia”, o volume de contos “Montanha” e o volume oitavo do “Diário”.
Nos arquivos da polícia política do Estado Novo, actualmente na Torre do Tombo, o investigador encontrou 450 páginas “não só sobre a vida profissional do médico Adolfo Rocha, mas também informações pessoais sobre as suas amizades, fotocópias de cartas endereçadas ao escritor, informações sobre quanto ele ganhava no consultório e informações relacionadas com a mulher”. O que, acrescenta Renato Nunes, demonstra bem a “tentativa de controlar de forma quase totalitária a vida de todos aqueles que, de um modo geral, ousavam pensar”.

Polícia política ajudou regime a manter-se
A sessão de lançamento do livro, em Coimbra, contou com a presença da historiadora Irene Flunser Pimentel, para quem “a grande questão sempre recorrente quando se procede à caracterização do regime ditatorial de Salazar e Caetano, através das suas instituições, é aquela que remete para a sua duração. Ou seja, tentar responder à pergunta: porque perdurou o Estado Novo durante tanto tempo? E, por outro lado, se algumas das suas instituições tiveram um papel preponderante nessa duração?”.
Efectivamente, e de acordo com a especialista em História do Estado Novo, e nomeadamente da PIDE, “a polícia política e a Censura ajudaram o regime a manter-se, assim como outros dos seus grandes pilares – a Igreja, e sobretudo as Forças Armadas”. No entanto, acrescenta, “o eficaz aparelho de Censura e o sistema de «saneamento» político estiveram umbilicalmente relacionados com a polícia política e contaram sempre com a sua colaboração”, sendo que “esta última foi o último factor de todos os instrumentos de intimidação, desmobilização, prevenção e repressão dos portugueses. Quando todos os meios de prevenção e dissuasão não impediam os surtos de resistência, então lá estava a polícia política para reprimir e neutralizar selectivamente aqueles que lutavam contra o Estado Novo”.
Este estudo sobre Miguel Torga e a PVDE/PIDE/DGS aborda precisamente a polícia política e a Censura. “Trata-se de uma monografia que parte da análise das 450 páginas do processo da polícia política de um determinado escritor – Miguel Torga –, cujo ponto de partida e hipótese analítica, confirmada pela conclusão, parte do particular para aventar a existência de uma situação mais geral: a repressão aos escritores”.
Mas uma vez que se sabe e está na legislação a censura prévia às publicações periódicas, teatro e cinema, afinal, houve, ou não censura prévia aos textos literários? A resposta é afirmativa e Renato Nunes lembra, na sua obra, o DL 22469 de 30/8/43 que alargou a Censura às publicações não periódicas, que apesar de não ter introduzido, no papel, a censura prévia, ou seja, a repressão preventiva das páginas literárias, a prática acabou por ser outra, mais insidiosa e perversa.
“A partir do diploma de 1943, a ambiguidade da lei contribuiu para confundir as editoras, que, para evitarem riscos e represálias, consentiram enviar previamente obras que pretendiam publicar à DGC”, recorda Irene Flunser Pimentel. “Portanto, uma das funções do Gabinete de Leitura das páginas literárias também passava por fazer a censura prévia, pois contava com um processo de auto-censura por parte dos escritores, embora, diga-se, não tivesse sido o caso de Torga”.
Recorde-se, mais uma vez, que o escritor sempre se recusou a apresentar previamente as suas obras. Mas houve, no entanto, “escritores, intelectuais e artistas expressamente convocados para apresentar as suas obras antes de serem distribuídas e a censura repressiva, numa fase posterior a publicação, a posteriori, sempre existiu”.

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