A morte é uma cozinha aberta

>> segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Paula Alexandra Almeida

“Era uma vez uma mãe que adoeceu. Ainda jovem, com duas filhas pequenas, cruzava os braços à minha frente e dizia: ‘Temos de acreditar, não é?’ O cancro evoluiu e o seu único prazer — palavra rara — era esperar a mais pequenita no regresso da escola e lanchar bolachas de chocolate com ela. ‘Vê-la comer, rir, guardar isso tudo’. As nossas últimas conversas foram silêncios sobre um segredo contado pelos suicidas: a hora da morte. De Cristo não recebeu a manifestação da glória de Deus, não ouviu, como a irmã de Lázaro, ‘Esta doença não é para a morte…’ (João, 11,4)”.

Este é o primeiro texto da primeira das cinco histórias que compõem o pequeno grande livro de Filipe Nunes Vicente, a história de uma mãe que morre lentamente diante dos filhos. Recentemente editado com chancela da Bertrand, “Educação para a morte” é, como ele próprio afirma, “o resultado do contacto prolongado com as perdas dos outros”. Mas também “o reflexo de perdas pessoas que me ajudaram a ajudar melhor os outros. Aprendi a mastigar ambas, a morte é uma cozinha aberta”.

Diplomado em Estudos Aprofundados em Psicologia Clínica pela Universidade Paul Valery, Filipe Nunes Vicente “tenta tratar pessoas”, como refere a breve apresentação da badana. “Educação para a morte” aparece escrito em forma de blogue — o autor mantém um desde há alguns anos —, em pequenos posts. Histórias onde aparecem referencias literárias e filosóficas, mas não por necessidade de exibir conhecimento, adianta. Antes porque o seu trabalho, “tentar ajudar quem perdeu (ou quem se perde), exige muito mais do que o manuseio de meia dúzia de técnicas psicoterapêuticas”.

Assim, ao longo dos anos, Filipe Nunes Vicente foi-se socorrendo do que lê e aprende, “de quem sabe muito”. Afirmando mover-se em territórios “pouco favoráveis à burocracia psicológica” — a perda, a memória e o tempo —, o livro nunca fala em tratamento “porque ele não existe”, assegura. “O que pode acontecer é que através da conversa entre dois humanos um deles consiga organizar a colecção de banalidades que as redondezas da morte suscita”.

Os capítulos do livro assentam em histórias reais, das quais Filipe Nunes Vicente desenvolve depois “linhas e costuras”. E sobre os seus ‘personagens’, garante, “há gente de uma coragem extraordinária, por vezes quase obscena. Há gente especializada na resistência, há gente que se deita com a culpa. A memória vela todos”.

Recordando o conselho do oráculo a Zenão — ‘Torna-te da cor dos mortos’ — Filipe Nunes Vicente assegura que este é para ser levado à letra. “O amor morre, sim senhor, e eles não ficam connosco para sempre. Estes lugares-comuns, piedosos e compreensíveis, não iludem outro igualmente banal: ficamos sem um bocado de nós. Assim, a cor dos mortos é a cor do tempo”. Nas histórias e nas reflexões que transcreve neste livro, “estamos todos a olhar para um Sol que não nasce. É essa a cor”.

É que “não há apenas saudade dos que nos morrem. Isso é a cratera. Muitas coisas têm de se passar: transformações, recuperações, desistências”, afirma ainda. Depois, “é a tal costura. Pedaços, detalhes, imagens. A devastação é sobretudo silenciosa, grande parte dela — se não a totalidade — ocorrendo longe do olhar de amigos e terapeutas”.

Mas fica sempre alguma coisa, garante Filipe Nunes Vicente. “Um remoer, uma fotografia, um ritmo desamparado e, sobretudo, uma correnteza de desespero: é o trabalho da memória, ora crebra, ora grossa, essa grande e incansável artesã”.

2 comentários:

Natural Naturalmente 27 Agosto, 2008 08:27  

Nossa!!! Adorei o seu post, comecei por aqui e dei uma grande volta ao seu cantinho.
Parabens.
Márcia

Antonio Garcia Barreto 17 Outubro, 2008 08:58  

Sugestão de leitura: "A Mulher da Minha Vida", Oficina do Livro, 2008

http://mulherminhavida.blogspot.com

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